terça-feira, 9 de abril de 2013
Estava a ver que me finava
Ontem decidi que estava um belo dia para ir a pé do trabalho para casa. São 5,4 km, nada de especial dizem vocês, os não sedentários, os fanáticos do desporto. O suficiente para quinar uma gaja digo eu, esta que vos escreve, a mesma que acha que a predisposição para o desporto lhe saiu do código genético májomenos no início da segunda década de vida. Fiquei com uma bolha no pé mas hoje, pah, hoje estou confiante. Tão confiante que até vim de ténis. Cortei foi o percurso a meio e só no Marquês é que me vêem a mexer naquilo que parece ser uma caminhada. Chegando ali aos restauradores, se me encontrarem a subir a rua do eléctrico da glória quase a falecer, não me ajudem, a coisa dá-se mesmo assim desta forma violenta. Depois é só um pulinho até casa onde me arrastarei alegre e feliz até ao banho. Isto se não ficar pela cama assim mesmo toda besuntada no meu próprio suor. Ah e tal, sou exagerada? Quécásaber!
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Escandalosa
tem sido a quantidade de horas que tenho dormido. E, assim de repente, só me lembro de algumas coisas para tal capacidade de hibernação:
- o tempo, a merda de tempo que tem feito no Porto,
- o cansaço, o muito cansaço acumulado,
- as minhas meninas, matam-me, juro que quando me vejo com as duas penso bem se quero procriar,
- a consciência tranquila (mas esta nem sempre me safa das insónias)
- a felicidade, o facto de poder dormir tranquila porque tudo o que era ontem, será hoje. E amanhã.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Os mete-nojo
Toda a gente sabe que tenho sérias dificuldades em desligar do trabalho quando estou de férias. A minha chefe dá-me verdadeiros raspanetes quando me apanha a responder a e-mails ou a mandar recados ou a fazer perguntas às escondidas. Nunca sou repreendida, felizmente, a não ser por não conseguir aproveitar as férias que, por sinal, são sempre muito merecidas. De resto, ela confia no meu trabalho e gosta de mim e eu dela. Melhor não podia ser. Os meus colegas são impecáveis e seguram as pontas que podem quando não estou e até se dão ao trabalho de me reportar o dia-a-dia para me tranquilizarem, naquela de saberem que eu sonho com trabalho e com uma possível explosão do edifício e tudo a ir pelos ares. São uns amores. As pessoas com quem lido indirectamente confiam, igualmente, em mim e nas minhas decisões, deixam coisas importantes ao meu cuidado e desejam-me boas férias e ficam felizes em não me aborrecer durante o tempo em que me ausento. Nota-se mesmo um carinho especial de alguns por mim, nota-se um esforço sincero em aguardar o meu regresso para me bombardearem de perguntas e pedidos. A bem do meu bem-estar mental e cardiovascular, este ano até decidi só tirar férias de uma semana de cada vez. Normalmente na segunda semana já começo a ressacar e a imaginar perdas incalculáveis e o sossego vai-se todo direitinho para o caralho, maneiras que quis experimentar esta nova modalidade. E poderia estar a resultar muito bem, não fosse pelos mete-nojo. Há sempre alguma alminha que se aproveita da minha ausência para, adivinhem, meter nojo. Há sempre uma alminha que, tendo sido perguntado se precisava de alguma coisa e se estava a antecipar algum pedido para esta semana, me responde que não e no primeiro dia de férias se dirige ao e-mail geral para pedir pontos de situação de merdas que já foram reportadas a quem de direito, que não lhe dizem directamente respeito e que deixam no ar certa insinuação acerca do meu poder de decisão. Há sempre aquela alminha ressabiada que teve de ser minha aluna certa vez e que levava uma crista muito alta, a bater no infinito, que eu fiz o favor de baixar, se pentear direitinha com uma risquinha ao meio e bem lambidinha, ali colada à tola, com todo o carinho. Há sempre uma alminha burra, a tal de que vos falo, que acha que vai perguntar algo do meu trabalho e alguém que não eu lhe vai dar resposta. Não tenho problemas com imprevistos, sabe deus que são o meu dia-a-dia, não tenho problemas em esclarecer dúvidas, não me importo sequer de pensar em trabalho durante as minhas férias, o que eu não suporto mesmo são os mete-nojo, aqueles que ficam ali a estalar os dedinhos até me apanharem fora para se atiararem ao teclado naquela de ver se me fodem porque, certa vez, fiz bem o meu trabalho e ao fazê-lo infinitamente melhor do que ela, o ego se esfrangalhou em pedacinhos e, em não recuperando, anda a ver se fode o meu. Ora, eu gostava mesmo era que os mete-nojo que pululam por aí, não só em contexto profissional, fossem pessoas mais felizes. Aposto que não metiam tanto nojo se fossem pessoas felizes. Só isso.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Adoraria
estar em casa aninhada no meu Caetano, que hoje faz anos por sinal, a ouvir a chuva e a guardar reservas de carinho para a semana que vou estar sem o ver. Adoraria estar a fazer-lhe um bolo para lhe cantar os parabéns, adoraria estar a ver séries e a beber café com leite e a comer uma torrada. Adoraria não ter de levar com a chuva e o vento, com este dia cinzento no caminho e adoraria não sentir esta dor nas costas. Adoraria que, sendo feriado, eu não estivesse a trabalhar.
terça-feira, 26 de março de 2013
Eu devia ter gostado a vida toda como gosto agora, mas bem sei que sem os tombos que dei, não me caberia no coração tudo o que agora cabe. Engraçado que o gajo devia ter encolhido mas não, ele creceu, ganhou anexos e um sotão onde guardo as memórias empoeiradas do que já foi. Sou mais capaz de amar agora, sou mais capaz de compreender, sou mais capaz de ouvir e sou mais interessada em saber, em aprender. Devia ter gostado assim a vida toda, como quem sabe que não vai perder o ar nunca, não se vai finar por amor, não vai senão continuar mesmo depois de perdas inacreditáveis. Devia ter gostado sempre assim, com a certeza que se sobrevive a mais do que nos julgamos capazes, que as forças nos chegam onde nunca as precisamos levar antes, que a seguir virá sempre, sempre, algo muito melhor. Eu devia ter-me apaixonado sempre como desta última vez, com a maturidade de não fugir esprando que me agarrem, com o colo sempre pronto a acolher, com o sorriso sempre aberto. Eu devia ter tentado sempre o que tento agora, devia ter confiado sempre tanto como hoje, devia ter tido sempre a certeza que quem vive em guerra não se ama, quem mede forças quer ganhar, não quer crescer junto, que quem se magoa não se quer bem. Devia ter sabido sempre que uma relação não dói sempre, não é feita de desculpas ou de ausências, não é feita de telhados de vidro e de ideias que não se concretizam. Devia ter tido sempre consciência que o amor não acontece entre duas pessoas que não se entregam, que não confiam. Eu devia ter sabido sempre o que é perdoável e o que não merece sequer consideração. Eu devia ter tido a vida toda a vontade de dar certo que tenho hoje, o mesmo empenho, a mesma vontade de ser feliz. Eu devia ter aprendido mais cedo que o que importa é o caminho, não o destino. Mas se eu soubesse isso a vida toda, não seria tão especial tudo o que sinto agora.
sexta-feira, 22 de março de 2013
Por uma qualquer ironia da vida, sendo eu uma excelente (sim, excelente) cozinheira, a verdade é que o frango assado me aterroriza. Geralmente quando o faço para mim fica maravilhoso, lá ando eu a bradar aos céus que o meu frango é que é e que mais suculento do que aquilo não há. Afirmo convicta que o peito não fica nada seco e, quem me ouve, lá começa a salivar. Sucede que quando cozinho para mais alguém e decido assar a ave, a coisa não corre bem. Acho que me sinto pressionada e às tantas acho que um dia dentro do forno é pouco e tenho de ter cuidado com as salmonelas. Lá fica o bicho seco como palha e as pessoas lá me passam o atestado de demente com devaneios de chef de cuisine. Ora, decidi fazer frango assado para o jantar e o meu Caetano deve ter as expectativas altas já que, recentemente, me gabei até não poder mais de um frango que fiz e ontem ele me viu a massajá-lo com a marinada como uma mãe massaja a cria. Não tenho provas dos meus sucessos anteriores, é verdade, e as minhas papilas gustativas recusam-me a prestar depoimento maneiras que, ou me calha bem o bicho de hoje, ou lá se vai a minha credibilidade. Eu não sei se vos acontece o mesmo mas eu olho para ele e nunca sei o que vai lá dentro. Se já está para lá de seco ou se ainda posso vir a apanhar uma caganeira amarelo ovo porque ainda está cru. Bem sei que existem termómetros e merdas sofisticadas, mas eu sou uma gaja tradicional. Eu cozinho à Kamikaze.
quinta-feira, 21 de março de 2013
Não fosse o facto de eu estar cansada e com quase 100 anos no lombo,
não fosse também o facto de considerar limpezas depois das 22h00 uma coisa pior do que a puta da chuva que cai lá fora, hoje iria para a cama fazendo-me acompanhar da marinada do frango que pretendo assar amanhã para besuntar no meu Caetano. Está uma gaja a esfregá-la no frango, tentando metê-la debaixo da pele do animal para aquilo impregnar bem quando o homem se queixa "A mim não me fazes tu isso!" Pronto, Caetano, está aqui o meu pedido de desculpas público por nunca me ter ocorrido usar uma mistura de colorau, louro, alho, azeite, vinho, sal, pimenta e sei lá mais o quê para te massajar o corpinho. Prometo que não me esqueço de um dia, na loucura do romantismo, te enfiar um limão no cu. Homens!
quarta-feira, 20 de março de 2013
Quando comecei a trabalhar aqui, trabalhei dez meses seguidos porque não sentia necessidade de férias. Não sei bem se eu estou menos resistente, se é do trabalho que duplicou ou das responsabilidades que me pesam mais, não sei se é de gerir os egos da equipa, se da necessidade de dormir mais mas ter de me levantar à mesma hora, não faço ideia do que seja, só sei que mal posso esperar pela primeira semana de Abril para ir para o Porto ser muito feliz. O meu rendimento já se ressente e se há coisa que me irrita é não estar a dar o meu melhor sempre. Enfim, ser humana tem destas coisas. Hoje estou cansada, não sei se se notaram, e ainda nem 10h00 são!
terça-feira, 19 de março de 2013
Estimados frio e chuva,
sempre achei muito triste a falta de noção do ridículo. Sempre tive alguma pena daqueles que não percebem quando são indesejados, quando ninguém os quer por perto, quando já ninguém lhes consegue achar graça mas que, mesmo assim, insistem em aparecer e estragar o prazer dos outros. Ontem estive com o sol e, perdoem-me, mas o gajo é um bacano. Sem receio de vos esfrangalhar os sentimentos fofinhos, digo-vos que o prefiro a ele. Não me importo, que também não sou um cubo de gelo, que vocês apareçam só de noite, quando eu estiver a dormir, ou nas hortas e campos por este país a fora. Há por lá imensos agricultores que ficavam felizes por vos receber, e são meninos para gostar de vocês à séria. Vocês podiam muito bem fazer o favor de serem felizes assim, viver uma existência mais recatada, e deixar a Primavera em paz. Deixá-la sossegadinha para dar o ar da sua graça, seus grandes rufias. No que me diz respeito, acho que nunca vos fiz mal nenhum e por isso é que fico aborrecida quando tu, frio, me provocas dores nos mamilhos como se eles fossem apertados com a força da mandíbula de um jacaré e quando tu, chuva, não dás sossego ao meu cabelo e o incitas a ser rebelde. A ver se nos entendemos que eu não quero que restem dúvidas, ide para o caralhinho e em meados de Outubro a malta acerta contas.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Valeu a pena esfrangalhar um pé,
quase levar na boca de uma família de ciganos e estar cheia de dores para sobreviver e ver o meu Caetano a tomar conta de mim como se toma conta de quem se gosta muito. Eu sou um acidente à espera de acontecer. A verdade é que sou dada a desastres e coisas estranhas que não vejo sucederem a mais ninguém. Também é verdade que o cansaço me tira o norte e me confere, descobri ontem, uma certa atracção pelo abismo, uma certa tendência suícida, se preferirem. Ontem fodi um pé numa valeta, vi estrelas no chão quando ainda era de dia e nem no céu seriam de esperar, e vi uma família de ciganos que, com o tamanho das dores, ainda pensei que fosse alucinação. Alucinação porquê? Porque uma puta achou oportuno desatar a rir alto e em bom som do meu tropeço. Ora, eu acho que qualquer pessoa se inibe de rir numa situação destas mas até compreendo se não conseguir evitar. O que não compreendo é que, quando lhe pergunto se gostava que se rissem se fosse ela a foder o pé, ela me responda com outra gargalhada. No entanto, também não é compreensível que eu lhe responda com "Foda-se, realmente ninguém é pobre senão de juízo. És estúpida como a merda." Ora, antes que me venham cá dizer que eu sou preconceituosa, adianto já que ela me respondeu com "Aiiiie, que tu tens desejos de morteeeee". E mais vos digo, pensem lá se depois disso também não receariam levar uma chumbada de caçadeira nas nalgas. Eu não, eu respondi "O que é que pretendes fazer em relação a isso?" e ganhei o estatuto de maluca às portas de morte e fui deixada em paz. Mas o que eu queria mesmo dizer é que o meu Caetano me ralhou hoje de manhã por eu me estar a arrastar para vir trabalhar, que ontem foi a minha casa buscar roupa para eu poder ficar na dele que é mais perto do meu trabalho, que foi à farmácia por mim, que me preparou o que comer e ainda o fez de boa vontade. Não bastasse o fumeiro, o meu homem também faz de enfermeiro.
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